Trinta e um anos atrás, a race week de Ímola 1994 já dava sinais de que não seria um final de semana fácil. Na sexta-feira, Rubens Barrichello sofreu um grave acidente durante os treinos livres do até então GP de San Marino. Perdeu a consciência por sete minutos, teve múltiplas fraturas e precisou ficar de fora da prova.
Mas foi durante a quali do sábado que o pior aconteceu: o estreante Roland Ratzenberger perdeu o controle da sua Simtek e bateu contra o muro a mais de 300 km/h. E foi ali que os erros começaram a transformar a FIA em uma assassina.

Especialistas já disseram, mais de uma vez, que é impossível que Ratzenberger tenha saído do circuito com vida para dar entrada no hospital que declarou seu óbito. A extensão dos ferimentos e o fato de haver uma TENTATIVA de reanimação ainda na pista corroboram isso. Mas sabe por que a FIA omitiu isso e fez com que a morte fosse declarada no Maggiore de Bolonha? A resposta é simples: ganância. Eles não queriam cancelar a prova e arcar com todos os custos que isso implicaria.
A lei italiana é clara: se um atleta morre durante o evento esportivo, a prova deve ser cancelada, e o local fica à disposição dos peritos pelo tempo que for necessário para concluir a investigação da causa. E se tratando da Itália, essa investigação poderia levar anos, impactando também o calendário de outras temporadas.
Tanto a FIA quanto a Simtek optaram por ignorar que um jovem de 33 anos perdeu a vida por falhas no carro. Um jovem que passou a vida economizando cada centavo que ganhava pra chegar até ali, pra poder, enfim, dizer que era um piloto de F1. Um homem que merecia que sua morte fosse mais respeitada, e principalmente, que o prenúncio que ela trouxe fosse ouvido.
Como, principalmente, a FIA optou por fingir que o que aconteceu no sábado aconteceu fora da pista, o Brasil e o mundo precisaram dar adeus precoce a um dos maiores nomes da história do automobilismo.
O nosso Ayrton Senna da Silva, brasileiro, nascido na zona norte de São Paulo, que também batalhou muito pra chegar até ali, deu tudo de si para conquistar seus três títulos mundiais, que era respeitado mesmo pelos rivais, o homem que se tornou lenda. Que foi capaz de ganhar seu primeiro GP em casa, mesmo com o câmbio travado, que merecidamente foi chamado de Rei da Chuva.

Se a organização de San Marino 94 tivesse seguido os protocolos legais e principalmente respeitado a morte do Roland, Ayrton não teria morrido naquele final de semana. O homem que ficou completamente abalado com o acidente do colega de profissão. O ídolo que confidenciou suas preocupações com a segurança do esporte ao amigo Galvão. Ele teria tido mais tempo para disputar mais GPs, brigar por melhorias de segurança e prestar sua homenagem ao novato que só queria viver um sonho.
Eles mereciam mais! Roland, Ayrton, e tantos outros que perderam a vida dentro de um carro de fórmula mereciam mais do que terem suas histórias atreladas a acidentes fatais. Eles mereciam o direito de viver o sonho com segurança, sem medo da morte. E, o mais importante: mereciam que suas mortes tivessem bastado.
Mas não bastaram.
Desde 1994, a Fórmula 1 e suas categorias de base perderam outros quatro pilotos. Quatro jovens com carreiras em ascensão, que morreram por conta da negligência e da postura reativa que a FIA tem em relação à segurança dos pilotos.
Em 2012, María de Villota (a piloto que Carlos Sainz homenageia com uma estrela em seu capacete) sofreu um acidente durante um teste aerodinâmico e morreu um ano depois, aos 33 anos, em decorrência das sequelas neurológicas.

Já em 2015, Jules Bianchi perdeu a vida após nove meses em coma, depois de colidir com um guindaste na pista durante o GP do Japão de 2014. Sua morte fez com que a FIA implementasse definitivamente a obrigatoriedade do Halo.

Em 2019, Anthoine Hubert morreu na Fórmula 2, em Spa-Francorchamps, após um impacto lateral devastador que expôs falhas nos protocolos de resposta a acidentes múltiplos em pista.

E o mais recente, em 2023, Dilano Van ‘t Hoff morreu na FRECA, também em Spa, em condições de pista severas que colocaram em xeque mais uma vez os protocolos de corrida em pista molhada para todas as categorias.

Desses quatro, três tinham menos de 26 anos e morreram por conta de acidentes em pistas homologadas pela FIA, durante atividades oficiais de seus campeonatos.
Vale lembrar que mesmo os reforços de segurança da estrutura cockpit só vieram após um adolescente de 17 anos, Billy Monger, perder as pernas em um acidente da F4 inglesa em 2017.

Foi preciso que mais vidas se perdessem para que novas decisões fossem tomadas. Foi preciso que mais famílias vivessem o luto para que a segurança avançasse.
Mal se passaram dois anos desde que o último piloto morreu enquanto perseguia o seu sonho, e o pior de tudo é saber que foi por falta de segurança, e não por falta de previsibilidade. A regra, infelizmente, é histórica: A FIA sempre foi reativa, raramente preventiva, memo com todas as novas tecnologias disponíveis para prever as vulnerabilidades.
E enquanto continuar sendo assim, a Fórmula 1 vai seguir correndo riscos desnecessários. Porque o problema nunca esteve na velocidade, e sim na negligência de quem deveria fiscalizar e garantir que nenhum piloto entre em pista sem segurança de verdade. Em pleno 2025, a FIA continua preferindo punir pilotos pelo que falam dentro e fora do carro do que fiscalizar, de fato, a segurança das pistas onde eles colocam suas vidas em risco a cada race weekend.




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