Quando foi que normalizamos a sobrecarga em cima dos profissionais de comunicação? Como é possível que, em tempos onde saúde mental e qualidade de vida estão sempre em pauta, os empregadores achem normal exigir que um analista de marketing saiba não só sobre estratégia e KPIs, mas também seja redator, copywriter, especialista em SEO, social media, designer, arte finalista, especialista em automação, web designer e, ainda por cima, DEV. Tudo isso, é claro, com a qualidade e habilidade que só alguém que se dedicou por anos seria capaz de ter.
E sabe qual é a parte mais irônica? O mercado que pede essa superqualificação também espera que esse profissional aceite ser PJ, em modelo presencial, exclusivo e com a “ótima” remuneração de R$ 3.000,00. Sem ajuda de custo, sem nenhum benefício, e com equipamentos de última geração para entregar um trabalho impecável.
E o mais engraçado? É que nas agências de publicidade e marketing, é onde esse cenário se torna mais comum. Quem mais desrespeita e exige acúmulo de tarefas são justamente as agências. E como o mercado já está calejado, elas resolveram dizer que não são agências, que são consultorias ou assessorias, mas entregam exatamente os mesmos serviços e promessas (para os clientes e para profissionais).
E incrivelmente, para a surpresa de zero pessoas, os gestores dessas agências (consultorias e assessorias) se fazem de surpresos quando alguém do time tem um burnout, ou então, recebe outras propostas e sai sem nem olhar para trás.
E os clientes nessa história? Percebem que o time muda o tempo inteiro, e começam a questionar o porquê disso. E principalmente, se é por isso que os resultados que o comercial jurou que seriam reais, nunca chegam.
O que as agências parecem esquecer é que a criatividade não é um recurso infinito. Não se renova no mesmo ritmo das demandas que chegam sem planejamento, dos briefings que mudam a cada reunião e dos cronogramas que desconsideram o tempo necessário para pensar, experimentar e errar. E essa lógica de esgotamento não corrói só os profissionais, ela destrói a própria qualidade das entregas que essas agências insistem em vender como seu diferencial.
Porque quando se trata pessoas como peças descartáveis, a inovação desaparece. Quando se escolhe volume em vez de consistência, a qualidade se perde em meio aos prazos e pressões que fazem a paixão se tornar só mais um fardo. No fim quem perde não é só o profissional que se esgota e questiona se está na profissão certa, mas sim o mercado, que vê seus grandes talentos se tornarem cada vez mais escassos, e os pseudomarketeiros (aqueles que assistiram 5min de uma aula gratuita e já se intitulam especialistas) vão tomando conta de tudo e fazendo a qualidade e criatividade se tornarem apenas uma lembrança distante.
Para tentar mascarar o caos e o descaso, as agências resolveram que era só criar campanhas internas para motivar o time, como se frases bonitinhas na parede, acesso a aplicativos de terapia e aulas de ioga fossem suficientes para apagar o desgaste emocional e exaustão física e mental que elas causam. Mas vamos combinar, que não adianta nada criar programas de qualidade de vida e ignorar a realidade de prazos impossíveis, de clientes insatisfeitos (que reclamam com razão) e de gestores que confundem contratação com escravidão.
E talvez a parte mais cruel de tudo isso, é que causa uma distorção a percepção de valor. Afinal depois de anos vivendo nesse ciclo, é quase impossível você se enxergar como um bom profissional. Como se a culpa fosse dos profissionais, por não serem resilientes o bastante, não terem foco e força de vontade e não se dedicarem como deveriam. No meio de todas essas sensações negativas, a capacidade de criar, a autoconfiança e até a própria identidade se perdem.
A rotatividade nas agências não é só uma questão de gestão, é o reflexo de um modelo que se recusa a mudar, que prefere queimar talentos e trocar profissionais como se fossem roupas em vez de corrigir processos e receber feedback de quem está na linha de frente. A verdade é que enquanto essas empresas continuarem vendendo a ilusão de que não ter hora para parar de trabalhar é ser eficiente, o número de burnouts vai continuar crescendo, o número de clientes insatisfeito pedindo cancelamento vai continuar crescendo, e a reputação da “assessoria” vai continuar se tornando cada vez pior.
No fim da história o cenário é de um mercado saturado de profissionais que mal sabem o básico (por falta de espaço e tempo para se aprimorar) e agências (consultorias) que só pensam em faturar, mas não conseguem entregar qualidade e resultados.
No longo prazo isso é insustentável, porque o profissional que se aperfeiçoa, busca receber proporcionalmente ao seu conhecimento, as agências se recusam a pagar mais e acabam com times inteiros insatisfeitos, que estão lá só de corpo presente, porque a mente está em vagas com salários melhores, e por isso a qualidade do serviço vai caindo, e o cliente final (que normalmente paga muito bem) acaba não recebendo o que contratou e nem os resultados que esperava.
Já chegou a hora de parar de vender uma narrativa de que estão mudando o mundo e que entregam resultados espetaculares, e aceitar que a comunicação não é uma ciência exata, que a qualidade e o encantamento precisam de paixão, e onde existe sobrecarga e acúmulo de funções a paixão dá lugar para o cansaço e a frustração.
Os publicitários, marketeiros e todos os comunicólogos merecem muito mais do que um discursinho bonito, brindes com a marca da empresa e benefícios de fachada. Merecem respeito, reconhecimento, remuneração de acordo com as suas habilidades e principalmente merecem o direito de fazer o que amam sem perder a saúde no processo.




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